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	<title>poetas portugueses &#8211; como fazer um poema</title>
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	<description>poesia brasileira e portuguesa</description>
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	<title>poetas portugueses &#8211; como fazer um poema</title>
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	<item>
		<title>9 poemas de Ricardo Reis, o heterônimo neoclássico pessoano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Jun 2024 12:31:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
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					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de Ricardo Reis, o heter&#244;nimo neocl&#225;ssico de Fernando Pessoa! Ricardo Reis est&#225; entre os heter&#244;nimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, e possui um estilo todo particular. Assim diz Fernando Pessoa sobre sua primeira apari&#231;&#227;o: O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-ricardo-reis-poesia/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">9 poemas de Ricardo Reis, o heterônimo neoclássico pessoano</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #808080;"><em>Confira a nossa seleção de poemas de Ricardo Reis, o heterônimo neoclássico de Fernando Pessoa!</em></span></p>
<p>Ricardo Reis está entre os heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, e possui um estilo todo particular.</p>
<p>Assim diz Fernando Pessoa sobre sua primeira aparição:</p>
<blockquote><p>O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as coisas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adopto nem aceito. Ocorreu-me a ideia de a tornar um neoclassicismo «científico» [&#8230;] reagir contra duas correntes — tanto contra o romantismo moderno, como contra o neoclassicismo à Maurras. [&#8230;]</p></blockquote>
<p>Ricardo Reis, conta-nos também Pessoa, era médico, e &#8220;estava frequentemente no Brasil&#8221;.</p>
<p>Quanto à sua poesia, o que a distingue é o já anunciado &#8220;neoclassicismo&#8221;, inspirado especialmente em Horácio, cujas odes eram características por celebrar o <em>carpe diem</em> e a <em>aurea mediocritas</em>.</p>
<p>Além de uma filosofia que assimila epicurismo e estoicismo, o amor é também tema presente nos poemas de Ricardo Reis, o que destaca ainda mais a influência horaciana, para quem o amor surgia atrelado à necessidade de desfrutá-lo judiciosamente.</p>
<p>Dito isso, preparamos uma seleção com 9 poemas de Ricardo Reis para que você possa apreciar o estilo deste heterônimo.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de Ricardo Reis</h2>
<h3>Uma após uma as ondas apressadas</h3>
<blockquote><p>Uma após uma as ondas apressadas<br />
Enrolam o seu verde movimento<br />
E chiam a alva espuma<br />
No moreno das praias.</p>
<p>Uma após uma as nuvens vagarosas<br />
Rasgam o seu redondo movimento<br />
E o sol aquece o espaço<br />
Do ar entre as nuvens escassas.</p>
<p>Indiferente a mim e eu a ela,<br />
A natureza deste dia calmo<br />
Furta pouco ao meu senso<br />
De se esvair o tempo.</p>
<p>Só uma vaga pena inconsequente<br />
Para um momento à porta da minha alma<br />
E após fitar-me um pouco<br />
Passa, a sorrir de nada.</p></blockquote>
<h3>Podemos crer-nos livres</h3>
<blockquote><p>Aqui, Neera, longe<br />
De homens e de cidades,<br />
Por ninguém nos tolher<br />
O passo, nem vedarem<br />
A nossa vista as casas,<br />
Podemos crer-nos livres.</p>
<p>Bem sei, é flava, que inda<br />
Nos tolhe a vida o corpo,<br />
E não temos a mão<br />
Onde temos a alma;<br />
Bem sei que mesmo aqui<br />
Se nos gasta esta carne<br />
Que os deuses concederam<br />
Ao estado antes de Averno.</p>
<p>Mas aqui não nos prendem<br />
Mais coisas do que a vida,<br />
Mãos alheias não tomam<br />
Do nosso braço, ou passos<br />
Humanos se atravessam<br />
Pelo nosso caminho.</p>
<p>Não nos sentimos presos<br />
Senão com pensarmos nisso,<br />
Por isso não pensemos<br />
E deixemo-nos crer<br />
Na inteira liberdade<br />
Que é a ilusão que agora<br />
Nos torna iguais dos deuses.</p></blockquote>
<h3>Mestre, são plácidas</h3>
<blockquote><p>Mestre, são plácidas<br />
Todas as horas<br />
Que nós perdemos.<br />
Se no perdê-las,<br />
Qual numa jarra,<br />
Nós pomos flores.</p>
<p>Não há tristezas<br />
Nem alegrias<br />
Na nossa vida.<br />
Assim saibamos,<br />
Sábios incautos,<br />
Não a viver,</p>
<p>Mas decorrê-la,<br />
Tranquilos, plácidos,<br />
Tendo as crianças<br />
Por nossas mestras,<br />
E os olhos cheios<br />
De Natureza…</p>
<p>A beira-rio,<br />
A beira-estrada,<br />
Conforme calha,<br />
Sempre no mesmo<br />
Leve descanso<br />
De estar vivendo.</p>
<p>O tempo passa,<br />
Não nos diz nada.<br />
Envelhecemos.<br />
Saibamos, quase<br />
Maliciosos,<br />
Sentir-nos ir.</p>
<p>Não vale a pena<br />
Fazer um gesto.<br />
Não se resiste<br />
Ao deus atroz<br />
Que os próprios filhos<br />
Devora sempre.</p>
<p>Colhamos flores.<br />
Molhemos leves<br />
As nossas mãos<br />
Nos rios calmos,<br />
Para aprendermos<br />
Calma também.</p>
<p>Girassóis sempre<br />
Fitando o Sol,<br />
Da vida iremos<br />
Tranquilos, tendo<br />
Nem o remorso<br />
De ter vivido.</p></blockquote>
<h3>Severo narro. Quanto sinto, penso</h3>
<blockquote><p>Severo narro. Quanto sinto, penso.<br />
Palavras são ideias.<br />
Múrmuro, o rio passa, e o que não passa,<br />
Que é nosso, não do rio.<br />
Assim quisesse o verso: meu e alheio<br />
E por mim mesmo lido.</p></blockquote>
<h3>Vive sem horas. Quanto mede pesa</h3>
<blockquote><p>Vive sem horas. Quanto mede pesa,<br />
E quanto pensas mede.<br />
Num fluido incerto nexo, como o rio<br />
Cujas ondas são ele,<br />
Assim teus dias vê, e se te vires<br />
Passar, como a outrem, cala.</p></blockquote>
<h3>Quero ignorado, e calmo</h3>
<blockquote><p>Quero ignorado, e calmo<br />
Por ignorado, e próprio<br />
Por calmo, encher meus dias<br />
De não querer mais deles.</p>
<p>Aos que a riqueza toca<br />
O ouro irrita a pele.<br />
Aos que a fama bafeja<br />
Embacia-se a vida.</p>
<p>Aos que a felicidade<br />
É sol, virá a noite.<br />
Mas ao que nada espera<br />
Tudo que vem é grato.</p></blockquote>
<h3>Não tenhas nada nas mãos</h3>
<blockquote><p>Não tenhas nada nas mãos<br />
Nem uma memória na alma,</p>
<p>Que quando te puserem<br />
Nas mãos o óbolo último,</p>
<p>Ao abrirem-te as mãos<br />
Nada te cairá.</p>
<p>Que trono te querem dar<br />
Que Átropos to não tire?</p>
<p>Que louros que não fanem<br />
Nos arbítrios de Minos?</p>
<p>Que horas que te não tornem<br />
Da estatura da sombra</p>
<p>Que serás quando fores<br />
Na noite e ao fim da estrada.</p>
<p>Colhe as flores mas larga-as,<br />
Das mãos mal as olhaste.</p>
<p>Senta-te ao sol. Abdica<br />
E sê rei de ti próprio.</p></blockquote>
<h3>Meu gesto que destrói</h3>
<blockquote><p>Meu gesto que destrói<br />
A mole das formigas,<br />
Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;<br />
Mas eu não sou divino para mim.</p>
<p>Assim talvez os deuses<br />
Para si o não sejam,<br />
E só de serem do que nós maiores<br />
Tirem o serem deuses para nós.</p>
<p>Seja qual for o certo,<br />
Mesmo para com esses<br />
Que cremos serem deuses, não sejamos<br />
Inteiros numa fé talvez sem causa.</p></blockquote>
<h3>Uns, com os olhos postos no passado</h3>
<blockquote><p>Uns, com os olhos postos no passado,<br />
Veem o que não veem; outros, fitos<br />
Os mesmos olhos no futuro, veem<br />
O que não pode ver-se.</p>
<p>Porque tão longe ir pôr o que está perto —<br />
A segurança nossa? Este é o dia,<br />
Esta é a hora, este o momento, isto<br />
É quem somos, e é tudo.</p>
<p>Perene flui a interminável hora<br />
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto<br />
Em que vivemos, morreremos. Colhe<br />
O dia, porque és ele.</p></blockquote>
<h4>Sobre Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa foi um poeta e escritor português que nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888.</p>
<p>Sua vasta obra contempla poemas, escritos filosóficos, sociológicos, astrológicos, ensaios de crítica literária, entre outros.</p>
<p>Em vida, Fernando Pessoa trabalhou como tradutor, correspondente estrangeiro, crítico literário e colaborador em revistas literárias, recusando alguns empregos para que pudesse se dedicar à literatura.</p>
<p>O poeta chegou a matricular-se na Faculdade de Letras de Lisboa, abandonando-a sem concluir o curso.</p>
<p>Sem dúvida, a grande excentricidade de Fernando Pessoa está em seus conhecidos heterônimos, que não são senão variações de sua própria personalidade, mas construídos com engenho incrível.</p>
<p>O poeta não se limitou a criar personalidades para seus heterônimos, e deu luz a uma história de vida completa para cada um deles, com data de nascimento adequando-se aos respectivos horóscopos, temperamento, estilo de vida, estilo literário e até data de óbito.</p>
<p>Fernando Pessoa faleceu em 30 de novembro de 1935, deixando em seu espólio cerca de 25 mil páginas de textos, que vêm sendo publicados lentamente desde então.</p>
<h4>Os heterônimos de Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa ficou famoso por escrever sob o nome de <a href="https://dicionario.priberam.org/heter%C3%B3nimo" target="_blank" rel="noopener">heterônimos</a>.</p>
<p>Foram muitas e muitas personalidades criadas por ele, e abaixo fazemos um resumo biográfico das quatro mais famosas:</p>
<ul>
<li>Álvaro de Campos: nascido em Tavira, em 1890. Possuía temperamento emotivo e, por isso mesmo, é às vezes eufórico e exaltado. Viajou para a Escócia e para o Oriente, educou-se na Inglaterra e formou-se engenheiro.</li>
<li>Alberto Caeiro: nascido em Lisboa, em 1889, e falecido de tuberculose. Escrevia poemas, mas não possuía educação formal. Era denominado mestre por Álvaro de Campos, que o colocava como precursor e ícone do movimento literário que ficou conhecido em Portugal como Sensacionismo. Distinguia-se pela racionalidade e objetividade, e tinha uma vida ligada ao campo e aos rebanhos.</li>
<li>Ricardo Reis: nascido no Porto, em 1887. Era médico e, segundo nos conta Pessoa, &#8220;está frequentemente no Brasil&#8221;.</li>
<li>Bernardo Soares: era um &#8220;ajudante de guarda-livros&#8221; lisboeta, autor do famosíssimo <em>Livro do desassossego</em>. Era considerado um &#8220;semi-heterônimo&#8221; por Fernando Pessoa, porque, nas palavras do poeta, &#8220;não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade&#8221;.</li>
</ul>
<h4>Obras de Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa publicou poucas obras em vida e, até hoje, possui parte de seus manuscritos inéditos.</p>
<p>Seus textos em poesia e prosa já foram editados sob muitos títulos, e abaixo destacamos algumas de suas obras mais conhecidas:</p>
<ul>
<li><em>35 sonnets (1918)</em></li>
<li><em>Antinous (1918)</em></li>
<li><em>English poems (1921) — em três volumes</em></li>
<li><em>Mensagem (1934)</em></li>
<li><em>A Nova Poesia Portuguesa (1944)</em></li>
<li><em>Poemas Dramáticos (1952)</em></li>
<li><em>Cartas de Amor de Fernando Pessoa (1978)</em></li>
<li><em>Sobre Portugal (1979)</em></li>
<li><em>Textos de Crítica e de Intervenção (1980)</em></li>
<li><em>Livro do desassossego (1982)</em></li>
<li><em>Obra Poética de Fernando Pessoa (1986)</em></li>
<li><em>Primeiro Fausto (1986)</em></li>
</ul>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de Ricardo Reis</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver a nossa coletânea de <a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-alvaro-de-campos-poesia/">poemas de Álvaro de Campos</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>4 poemas de Álvaro de Campos, o mais emotivo dentre os heterônimos pessoanos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Jun 2024 15:28:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
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					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de &#193;lvaro de Campos, o mais emotivo dentre os heter&#244;nimos pessoanos! &#193;lvaro de Campos &#233; o mais emotivo entre os heter&#244;nimos de Fernando Pessoa e, em raz&#227;o desta suscetibilidade, &#233; tamb&#233;m o que se expressa com maior emo&#231;&#227;o. &#201; deste heter&#244;nimo que sa&#237;ram algumas das composi&#231;&#245;es mais famosas de&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-alvaro-de-campos-poesia/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">4 poemas de Álvaro de Campos, o mais emotivo dentre os heterônimos pessoanos</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #808080;"><em>Confira a nossa seleção de poemas de Álvaro de Campos, o mais emotivo dentre os heterônimos pessoanos!</em></span></p>
<p>Álvaro de Campos é o mais emotivo entre os heterônimos de Fernando Pessoa e, em razão desta suscetibilidade, é também o que se expressa com maior emoção.</p>
<p>É deste heterônimo que saíram algumas das composições mais famosas de Pessoa, como o poema<em> <a href="https://comofazerumpoema.com/tabacaria-fernando-pessoa-todos-sonhos-mundo/">Tabacaria</a></em> e as célebres <em>Ode marítima</em> e <em>Ode triunfal</em>.</p>
<p>Nos poemas de Álvaro de Campos destaca-se uma força expressiva e uma energia incomuns, que por vezes pode soar até exagerada; mas é característico deste heterônimo o deixar-se levar pelo sentimento e expressá-lo com força máxima, ainda que soe eufórico ou exaltado.</p>
<p>Dito isso, preparamos uma seleção com 4 poemas de Álvaro de Campos para que você possa apreciar o estilo deste heterônimo.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de Álvaro de Campos</h2>
<h3>Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo</h3>
<blockquote><p>Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo.<br />
São — tictac visível — quatro horas de tardar o dia.<br />
Abro a janela diretamente, no desespero da insônia.<br />
E, de repente, humano,<br />
O quadrado com cruz de uma janela iluminada!</p>
<p>Fraternidade na noite!<br />
Fraternidade involuntária, incógnita, na noite!<br />
Estamos ambos despertos e a humanidade é alheia.<br />
Dorme. Nós temos luz.</p>
<p>Quem serás? Doente, moedeiro falso, insone simples como eu?<br />
Não importa. A noite eterna, informe, infinita,<br />
Só tem, neste lugar, a humanidade das nossas duas janelas,<br />
O coração latente das nossas duas luzes,<br />
Neste momento e lugar, ignorando-nos, somos toda a vida.<br />
Sobre o parapeito da janela da traseira da casa,<br />
Sentindo úmida da noite a madeira onde agarro,<br />
Debruço-me para o infinito e, um pouco, para mim.</p>
<p>Nem galos gritando ainda no silêncio definitivo!<br />
Que fazes, camarada, da janela com luz?<br />
Sonho, falta de sono, vida?<br />
Tom amarelo cheio da tua janela incógnita…<br />
Tem graça: não tens luz elétrica.<br />
Ó candeeiros de petróleo da minha infância perdida!</p></blockquote>
<ul>
<li><em>Confira a nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/acordo-de-noite-muito-noite-fernando-pessoa/">Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo, de Álvaro de Campos</a>.</em></li>
</ul>
<h3>Quando olho para mim não me percebo</h3>
<blockquote><p>Quando olho para mim não me percebo.<br />
Tenho tanto a mania de sentir<br />
Que me extravio às vezes ao sair<br />
Das próprias sensações que eu recebo.</p>
<p>O ar que respiro, este licor que bebo<br />
Pertencem ao meu modo de existir,<br />
E eu nunca sei como hei-de concluir<br />
As sensações que a meu pesar concebo.</p>
<p>Nem nunca, propriamente, reparei<br />
Se na verdade sinto o que sinto. Eu<br />
Serei tal qual pareço em mim? serei</p>
<p>Tal qual me julgo verdadeiramente?<br />
Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,<br />
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.</p></blockquote>
<ul>
<li><em>Confira a nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/quando-olho-para-mim-nao-me-percebo-pessoa/">Quando olho para mim não me percebo, de Álvaro de Campos</a>.</em></li>
</ul>
<h3>O que há em mim é sobretudo cansaço</h3>
<div class="nv-iframe-embed"><iframe title="Poema O que há em mim é sobretudo cansaço, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)" width="1200" height="675" src="https://www.youtube.com/embed/zRuICj_eSDw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<blockquote><p>O que há em mim é sobretudo cansaço —<br />
Não disto nem daquilo,<br />
Nem sequer de tudo ou de nada:<br />
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,<br />
Cansaço.</p>
<p>A sutileza das sensações inúteis,<br />
As paixões violentas por coisa nenhuma,<br />
Os amores intensos por o suposto em alguém,<br />
Essas coisas todas —<br />
Essas e o que falta nelas eternamente —;<br />
Tudo isso faz um cansaço,<br />
Este cansaço,<br />
Cansaço.</p>
<p>Há sem dúvida quem ame o infinito,<br />
Há sem dúvida quem deseje o impossível,<br />
Há sem dúvida quem não queira nada —<br />
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:<br />
Porque eu amo infinitamente o finito,<br />
Porque eu desejo impossivelmente o possível,<br />
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,<br />
Ou até se não puder ser…</p>
<p>E o resultado?<br />
Para eles a vida vivida ou sonhada,<br />
Para eles o sonho sonhado ou vivido,<br />
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, a vida…<br />
Para mim só um grande, um profundo,<br />
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,<br />
Um supremíssimo cansaço,<br />
Íssimo, íssimo, íssimo,<br />
Cansaço…</p></blockquote>
<ul>
<li>Confira a nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/o-que-ha-em-mim-e-sobretudo-cansaco-pessoa/">O que há em mim é sobretudo cansaço, de Álvaro de Campos</a>.</li>
</ul>
<h3>Poema em linha reta</h3>
<blockquote><p>Nunca conheci quem tivesse levado porrada.<br />
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.</p>
<p>E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,<br />
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,<br />
Indesculpavelmente sujo,<br />
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,<br />
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,<br />
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das<br />
etiquetas,<br />
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,<br />
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,<br />
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;<br />
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,<br />
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,<br />
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,<br />
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado<br />
Para fora da possibilidade do soco;<br />
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,<br />
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.</p>
<p>Toda a gente que eu conheço e que fala comigo<br />
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,<br />
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…</p>
<p>Quem me dera ouvir de alguém a voz humana<br />
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;<br />
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!<br />
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.<br />
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?<br />
Ó príncipes, meus irmãos,</p>
<p>Arre, estou farto de semideuses!<br />
Onde é que há gente no mundo?</p>
<p>Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?</p>
<p>Poderão as mulheres não os terem amado,<br />
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!<br />
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,<br />
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?<br />
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,<br />
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.</p></blockquote>
<ul>
<li><em>Confira a nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/poema-em-linha-reta-fernando-pessoa-poesia/">Poema em linha reta, de Álvaro de Campos</a>.</em></li>
</ul>
<h4>Sobre Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa foi um poeta e escritor português que nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888.</p>
<p>Sua vasta obra contempla poemas, escritos filosóficos, sociológicos, astrológicos, ensaios de crítica literária, entre outros.</p>
<p>Em vida, Fernando Pessoa trabalhou como tradutor, correspondente estrangeiro, crítico literário e colaborador em revistas literárias, recusando alguns empregos para que pudesse se dedicar à literatura.</p>
<p>O poeta chegou a matricular-se na Faculdade de Letras de Lisboa, abandonando-a sem concluir o curso.</p>
<p>Sem dúvida, a grande excentricidade de Fernando Pessoa está em seus conhecidos heterônimos, que não são senão variações de sua própria personalidade, mas construídos com engenho incrível.</p>
<p>O poeta não se limitou a criar personalidades para seus heterônimos, e deu luz a uma história de vida completa para cada um deles, com data de nascimento adequando-se aos respectivos horóscopos, temperamento, estilo de vida, estilo literário e até data de óbito.</p>
<p>Fernando Pessoa faleceu em 30 de novembro de 1935, deixando em seu espólio cerca de 25 mil páginas de textos, que vêm sendo publicados lentamente desde então.</p>
<h4>Os heterônimos de Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa ficou famoso por escrever sob o nome de <a href="https://dicionario.priberam.org/heter%C3%B3nimo" target="_blank" rel="noopener">heterônimos</a>.</p>
<p>Foram muitas e muitas personalidades criadas por ele, e abaixo fazemos um resumo biográfico das quatro mais famosas:</p>
<ul>
<li>Álvaro de Campos: nascido em Tavira, em 1890. Possuía temperamento emotivo e, por isso mesmo, é às vezes eufórico e exaltado. Viajou para a Escócia e para o Oriente, educou-se na Inglaterra e formou-se engenheiro.</li>
<li>Alberto Caeiro: nascido em Lisboa, em 1889, e falecido de tuberculose. Escrevia poemas, mas não possuía educação formal. Era denominado mestre por Álvaro de Campos, que o colocava como precursor e ícone do movimento literário que ficou conhecido em Portugal como Sensacionismo. Distinguia-se pela racionalidade e objetividade, e tinha uma vida ligada ao campo e aos rebanhos.</li>
<li>Ricardo Reis: nascido no Porto, em 1887. Era médico e, segundo nos conta Pessoa, &#8220;está frequentemente no Brasil&#8221;.</li>
<li>Bernardo Soares: era um &#8220;ajudante de guarda-livros&#8221; lisboeta, autor do famosíssimo <em>Livro do desassossego</em>. Era considerado um &#8220;semi-heterônimo&#8221; por Fernando Pessoa, porque, nas palavras do poeta, &#8220;não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade&#8221;.</li>
</ul>
<h4>Obras de Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa publicou poucas obras em vida e, até hoje, possui parte de seus manuscritos inéditos.</p>
<p>Seus textos em poesia e prosa já foram editados sob muitos títulos, e abaixo destacamos algumas de suas obras mais conhecidas:</p>
<ul>
<li><em>35 sonnets (1918)</em></li>
<li><em>Antinous (1918)</em></li>
<li><em>English poems (1921) — em três volumes</em></li>
<li><em>Mensagem (1934)</em></li>
<li><em>A Nova Poesia Portuguesa (1944)</em></li>
<li><em>Poemas Dramáticos (1952)</em></li>
<li><em>Cartas de Amor de Fernando Pessoa (1978)</em></li>
<li><em>Sobre Portugal (1979)</em></li>
<li><em>Textos de Crítica e de Intervenção (1980)</em></li>
<li><em>Livro do desassossego (1982)</em></li>
<li><em>Obra Poética de Fernando Pessoa (1986)</em></li>
<li><em>Primeiro Fausto (1986)</em></li>
</ul>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de Álvaro de Campos.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver a nossa coletânea de <a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-alberto-caeiro-poesia/">poemas de Alberto Caeiro</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>7 poemas de Alberto Caeiro para conhecer este heterônimo pessoano</title>
		<link>https://comofazerumpoema.com/poemas-de-alberto-caeiro-poesia/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=poemas-de-alberto-caeiro-poesia</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 May 2024 15:35:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://comofazerumpoema.com/?p=3432</guid>

					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de Alberto Caeiro para conhecer este heter&#244;nimo pessoano! Em muitos sentidos, &#233; Alberto Caeiro o heter&#244;nimo mais importante de Fernando Pessoa. Denominado &#8220;mestre&#8221; por outros heter&#244;nimos, assim o pr&#243;prio Fernando Pessoa descreve, em carta, a sua primeira apari&#231;&#227;o: (&#8230;) acerquei-me de uma c&#244;moda alta, e, tomando um papel, comecei&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-alberto-caeiro-poesia/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">7 poemas de Alberto Caeiro para conhecer este heterônimo pessoano</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #808080;"><em>Confira a nossa seleção de poemas de Alberto Caeiro para conhecer este heterônimo pessoano!</em></span></p>
<p>Em muitos sentidos, é Alberto Caeiro o heterônimo mais importante de Fernando Pessoa.</p>
<p>Denominado &#8220;mestre&#8221; por outros heterônimos, assim o próprio Fernando Pessoa descreve, em <a href="http://arquivopessoa.net/textos/3007" target="_blank" rel="noopener">carta</a>, a sua primeira aparição:</p>
<blockquote><p>(&#8230;) acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, <em>O Guardador de Rebanhos</em>. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive.</p></blockquote>
<p>Caeiro é um poeta distinto pela racionalidade e objetividade, e por levar uma vida ligada ao campo e aos rebanhos.</p>
<p>A maioria de seus poemas são <a href="https://comofazerumpoema.com/ecloga-egloga-caracteristicas-exemplos-poesia/">éclogas</a> em <a href="https://comofazerumpoema.com/verso-livre-caracteristicas-exemplos/">verso livre</a>, portanto, são poemas que se passam num cenário campestre, manso e agradável, nos quais o poeta reflete sobre a natureza e expõe sua filosofia de vida.</p>
<p>Dito isso, preparamos uma seleção com 7 poemas de Alberto Caeiro para que você possa apreciar o estilo deste célebre heterônimo.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de Alberto Caeiro</h2>
<h3>Se, depois de eu morrer</h3>
<div class="nv-iframe-embed"><iframe title="Poema Se, depois de eu morrer, de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) | como fazer um poema" width="1200" height="675" src="https://www.youtube.com/embed/20yyx3BqMcE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<blockquote><p>Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,<br />
Não há nada mais simples.<br />
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.<br />
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.</p>
<p>Sou fácil de definir.<br />
Vi como um danado.<br />
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.<br />
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.<br />
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.<br />
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;<br />
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.<br />
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.</p>
<p>Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.<br />
Fechei os olhos e dormi.<br />
Além disso, fui o único poeta da Natureza.</p></blockquote>
<ul>
<li><em>Confira nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/poema-se-depois-de-eu-morrer-faernando-pessoa/">Se, depois de eu morrer, de Alberto Caeiro</a>.</em></li>
</ul>
<h3>Não tenho pressa. Pressa de quê?</h3>
<blockquote><p>Não tenho pressa. Pressa de quê?<br />
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.<br />
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,<br />
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.<br />
Não; não sei ter pressa.<br />
Se estendo o braço, chego exatamente aonde o meu braço chega —<br />
Nem um centímetro mais longe.<br />
Toco só onde toco, não aonde penso.<br />
Só me posso sentar aonde estou.<br />
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,<br />
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,<br />
E vivemos vadios da nossa realidade.<br />
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.</p></blockquote>
<ul>
<li><em>Confira nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/poema-nao-tenho-pressa-pressa-fernando-pessoa/">Não tenho pressa. Pressa de quê?, de Alberto Caeiro</a>.</em></li>
</ul>
<h3>O meu olhar é nítido como um girassol</h3>
<blockquote><p>O meu olhar é nítido como um girassol.<br />
Tenho o costume de andar pelas estradas<br />
Olhando para a direita e para a esquerda,<br />
E de vez em quando olhando para trás…<br />
E o que vejo a cada momento<br />
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,<br />
E eu sei dar por isso muito bem…<br />
Sei ter o pasmo essencial<br />
Que tem uma criança se, ao nascer,<br />
Reparasse que nascera deveras…<br />
Sinto-me nascido a cada momento<br />
Para a eterna novidade do mundo…</p>
<p>Creio no mundo como num malmequer,<br />
Porque o vejo. Mas não penso nele<br />
Porque pensar é não compreender…<br />
O Mundo não se fez para pensarmos nele<br />
(Pensar é estar doente dos olhos)<br />
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…</p>
<p>Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…<br />
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.<br />
Mas porque a amo, e amo-a por isso,<br />
Porque quem ama nunca sabe o que ama<br />
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…</p>
<p>Amar é a eterna inocência,<br />
E a única inocência não pensar…</p></blockquote>
<h3>Se eu pudesse</h3>
<div class="nv-iframe-embed"><iframe title="Poema Se eu pudesse, de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) | como fazer um poema" width="1200" height="675" src="https://www.youtube.com/embed/ZdFZtkEtDdY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<blockquote><p>XXI</p>
<p>Se eu pudesse trincar a terra toda<br />
E sentir-lhe um paladar,<br />
E se a terra fosse uma coisa para trincar<br />
Seria mais feliz um momento…<br />
Mas eu nem sempre quero ser feliz.<br />
É preciso ser de vez em quando infeliz<br />
Para se poder ser natural…</p>
<p>Nem tudo é dias de sol,<br />
E a chuva, quando falta muito, pede-se.<br />
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade<br />
Naturalmente, como quem não estranha<br />
Que haja montanhas e planícies<br />
E que haja rochedos e erva…</p>
<p>O que é preciso é ser-se natural e calmo<br />
Na felicidade ou na infelicidade,<br />
Sentir como quem olha,<br />
Pensar como quem anda,<br />
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,<br />
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…<br />
Assim é e assim seja…</p></blockquote>
<ul>
<li><em>Confira nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/poema-se-eu-pudesse-fernando-pessoa-caeiro/">Se eu pudesse, de Alberto Caeiro</a>.</em></li>
</ul>
<h3>Nunca busquei viver a minha vida</h3>
<blockquote><p>Nunca busquei viver a minha vida<br />
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.<br />
Só quis ver como se não tivesse alma<br />
Só quis ver como se fosse eterno.</p></blockquote>
<h3>Dizes-me: tu és mais alguma coisa</h3>
<blockquote><p>Dizes-me: tu és mais alguma coisa<br />
Que uma pedra ou uma planta.<br />
Dizes-me: sentes, pensas e sabes<br />
Que pensas e sentes.<br />
Então as pedras escrevem versos?<br />
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?</p>
<p>Sim: há diferença.<br />
Mas não é a diferença que encontras;<br />
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:<br />
Só me obriga a ser consciente.</p>
<p>Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.<br />
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.</p>
<p>Ter consciência é mais que ter cor?<br />
Pode ser e pode não ser.<br />
Sei que é diferente apenas.<br />
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.</p>
<p>Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.<br />
Sei isto porque elas existem.</p>
<p>Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.<br />
Sei que sou real também.<br />
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,<br />
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.<br />
Não sei mais nada.</p>
<p>Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.<br />
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.<br />
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;<br />
E as plantas são plantas só, e não pensadores.<br />
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,<br />
Como que sou inferior.<br />
Mas não digo isso: digo da pedra, “é uma pedra”,<br />
Digo da planta, “é uma planta”,<br />
Digo de mim, “sou eu”.<br />
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?</p></blockquote>
<h3>Quem me dera eu fosse o pó da estrada</h3>
<blockquote><p>Quem me dera eu fosse o pó da estrada<br />
E que os pés dos pobres me estivessem pisando…</p>
<p>Quem me dera eu fosse os rios que correm<br />
E que as lavadeiras estivessem à minha beira…</p>
<p>Quem me dera eu fosse os choupos à margem do rio<br />
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo…</p>
<p>Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro<br />
E que ele me batesse e me estimasse…</p>
<p>Antes isso que ser o que atravessa a vida<br />
Olhando para trás de si e tendo pena…</p></blockquote>
<h4>Sobre Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa foi um poeta e escritor português que nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888.</p>
<p>Sua vasta obra contempla poemas, escritos filosóficos, sociológicos, astrológicos, ensaios de crítica literária, entre outros.</p>
<p>Em vida, Fernando Pessoa trabalhou como tradutor, correspondente estrangeiro, crítico literário e colaborador em revistas literárias, recusando alguns empregos para que pudesse se dedicar à literatura.</p>
<p>O poeta chegou a matricular-se na Faculdade de Letras de Lisboa, abandonando-a sem concluir o curso.</p>
<p>Sem dúvida, a grande excentricidade de Fernando Pessoa está em seus conhecidos heterônimos, que não são senão variações de sua própria personalidade, mas construídos com engenho incrível.</p>
<p>O poeta não se limitou a criar personalidades para seus heterônimos, e deu luz a uma história de vida completa para cada um deles, com data de nascimento adequando-se aos respectivos horóscopos, temperamento, estilo de vida, estilo literário e até data de óbito.</p>
<p>Fernando Pessoa faleceu em 30 de novembro de 1935, deixando em seu espólio cerca de 25 mil páginas de textos, que vêm sendo publicados lentamente desde então.</p>
<h4>Os heterônimos de Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa ficou famoso por escrever sob o nome de <a href="https://dicionario.priberam.org/heter%C3%B3nimo" target="_blank" rel="noopener">heterônimos</a>.</p>
<p>Foram muitas e muitas personalidades criadas por ele, e abaixo fazemos um resumo biográfico das quatro mais famosas:</p>
<ul>
<li>Álvaro de Campos: nascido em Tavira, em 1890. Possuía temperamento emotivo e, por isso mesmo, é às vezes eufórico e exaltado. Viajou para a Escócia e para o Oriente, educou-se na Inglaterra e formou-se engenheiro.</li>
<li>Alberto Caeiro: nascido em Lisboa, em 1889, e falecido de tuberculose. Escrevia poemas, mas não possuía educação formal. Era denominado mestre por Álvaro de Campos, que o colocava como precursor e ícone do movimento literário que ficou conhecido em Portugal como Sensacionismo. Distinguia-se pela racionalidade e objetividade, e tinha uma vida ligada ao campo e aos rebanhos.</li>
<li>Ricardo Reis: nascido no Porto, em 1887. Era médico e, segundo nos conta Pessoa, &#8220;está frequentemente no Brasil&#8221;.</li>
<li>Bernardo Soares: era um &#8220;ajudante de guarda-livros&#8221; lisboeta, autor do famosíssimo <em>Livro do desassossego</em>. Era considerado um &#8220;semi-heterônimo&#8221; por Fernando Pessoa, porque, nas palavras do poeta, &#8220;não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade&#8221;.</li>
</ul>
<h4>Obras de Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa publicou poucas obras em vida e, até hoje, possui parte de seus manuscritos inéditos.</p>
<p>Seus textos em poesia e prosa já foram editados sob muitos títulos, e abaixo destacamos algumas de suas obras mais conhecidas:</p>
<ul>
<li><em>35 sonnets (1918)</em></li>
<li><em>Antinous (1918)</em></li>
<li><em>English poems (1921) — em três volumes</em></li>
<li><em>Mensagem (1934)</em></li>
<li><em>A Nova Poesia Portuguesa (1944)</em></li>
<li><em>Poemas Dramáticos (1952)</em></li>
<li><em>Cartas de Amor de Fernando Pessoa (1978)</em></li>
<li><em>Sobre Portugal (1979)</em></li>
<li><em>Textos de Crítica e de Intervenção (1980)</em></li>
<li><em>Livro do desassossego (1982)</em></li>
<li><em>Obra Poética de Fernando Pessoa (1986)</em></li>
<li><em>Primeiro Fausto (1986)</em></li>
</ul>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de Alberto Caeiro.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver o que escrevemos sobre <a href="https://comofazerumpoema.com/poema-o-que-me-doi-nao-e-fernando-pessoa/">O que me dói não é, de Fernando Pessoa</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>10 poemas curtos de Fernando Pessoa para ler e se impressionar!</title>
		<link>https://comofazerumpoema.com/poemas-curtos-de-fernando-pessoa-poesia/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=poemas-curtos-de-fernando-pessoa-poesia</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Feb 2024 14:58:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://comofazerumpoema.com/?p=2856</guid>

					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas curtos de Fernando Pessoa e se deixe impressionar! Fernando Pessoa &#233; um destes raros poetas que, com poucas palavras, tem a capacidade de comover. Isso decorre de sua percep&#231;&#227;o acut&#237;ssima da realidade humana, que se alia &#224; sua rara capacidade de express&#227;o. Assim que, &#224;s vezes numa &#250;nica estrofe,&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-curtos-de-fernando-pessoa-poesia/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">10 poemas curtos de Fernando Pessoa para ler e se impressionar!</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #808080;"><em>Confira a nossa seleção de poemas curtos de Fernando Pessoa e se deixe impressionar!</em></span></p>
<p>Fernando Pessoa é um destes raros poetas que, com poucas palavras, tem a capacidade de comover.</p>
<p>Isso decorre de sua percepção acutíssima da realidade humana, que se alia à sua rara capacidade de expressão.</p>
<p>Assim que, às vezes numa única estrofe, o grande português consegue impactar-nos e transmitir uma mensagem potente.</p>
<p>Para comprová-lo, preparamos uma seleção com 10 poemas curtos de Fernando Pessoa, para que você possa ler e se impressionar com o estro deste gigante.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas curtos de Fernando Pessoa</h2>
<h3>Dorme, que a vida é nada!</h3>
<div class="nv-iframe-embed"><iframe loading="lazy" title="Poema Dorme, que a vida é nada!, de Fernando Pessoa | como fazer um poema" width="1200" height="675" src="https://www.youtube.com/embed/a1DbY04pNC0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<blockquote><p>Dorme, que a vida é nada!<br />
Dorme, que tudo é vão!<br />
Se alguém achou a estrada,<br />
Achou-a em confusão,<br />
Com a alma enganada.</p>
<p>Não há lugar nem dia<br />
Para quem quer achar,<br />
Nem paz nem alegria<br />
Para quem, por amar,<br />
Em quem ama confia.</p>
<p>Melhor entre onde os ramos<br />
Tecem dosséis sem ser<br />
Ficar como ficamos,<br />
Sem pensar nem querer,<br />
Dando o que nunca damos.</p></blockquote>
<h3>Mar português</h3>
<div class="nv-iframe-embed"><iframe loading="lazy" title="Poema Mar português, de Fernando Pessoa | como fazer um poema" src="https://www.youtube.com/embed/e8z4M0JqBso?feature=oembed" width="1200" height="675" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen" data-mce-fragment="1"></iframe></div>
<blockquote><p>Ó mar salgado, quanto do teu sal<br />
São lágrimas de Portugal!<br />
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,<br />
Quantos filhos em vão rezaram!<br />
Quantas noivas ficaram por casar<br />
Para que fosses nosso, ó mar!</p>
<p>Valeu a pena? Tudo vale a pena<br />
Se a alma não é pequena.<br />
Quem quer passar além do Bojador<br />
Tem que passar além da dor.<br />
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,<br />
Mas nele é que espelhou o céu.</p></blockquote>
<ul>
<li><em>Confira nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/mar-portugues-fernando-pessoa-tudo-vale-a-pena/">Mar português, de Fernando Pessoa</a>.</em></li>
</ul>
<h3><span id="Segue_o_teu_destino_de_Fernando_Pessoa" class="ez-toc-section"></span>Segue o teu destino</h3>
<div class="nv-iframe-embed"><iframe loading="lazy" title="Poema Segue o teu destino, de Fernando Pessoa | como fazer um poema" src="https://www.youtube.com/embed/X2hDmVN-MI4?feature=oembed" width="1200" height="675" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen" data-mce-fragment="1"></iframe></div>
<blockquote><p>Segue o teu destino,<br />
Rega as tuas plantas,<br />
Ama as tuas rosas.<br />
O resto é a sombra<br />
De árvores alheias.</p>
<p>A realidade<br />
Sempre é mais ou menos<br />
Do que nós queremos.<br />
Só nós somos sempre<br />
Iguais a nós-próprios.</p>
<p>Suave é viver só.<br />
Grande e nobre é sempre<br />
Viver simplesmente.<br />
Deixa a dor nas aras<br />
Como ex-voto aos deuses.</p>
<p>Vê de longe a vida.<br />
Nunca a interrogues.<br />
Ela nada pode<br />
Dizer-te. A resposta<br />
Está além dos deuses.</p>
<p>Mas serenamente<br />
Imita o Olimpo<br />
No teu coração.<br />
Os deuses são deuses<br />
Porque não se pensam.</p></blockquote>
<h3>Presságio</h3>
<blockquote><p>O amor, quando se revela,<br />
Não se sabe revelar.<br />
Sabe bem olhar p’ra ela,<br />
Mas não lhe sabe falar.</p>
<p>Quem quer dizer o que sente<br />
Não sabe o que há de dizer.<br />
Fala: parece que mente…<br />
Cala: parece esquecer…</p>
<p>Ah, mas se ela adivinhasse,<br />
Se pudesse ouvir o olhar,<br />
E se um olhar lhe bastasse<br />
P’ra saber que a estão a amar!</p>
<p>Mas quem sente muito, cala;<br />
Quem quer dizer quanto sente<br />
Fica sem alma nem fala,<br />
Fica só, inteiramente!</p>
<p>Mas se isto puder contar-lhe<br />
O que não lhe ouso contar,<br />
Já não terei que falar-lhe<br />
Porque lhe estou a falar…</p></blockquote>
<h3>Autopsicografia</h3>
<div class="nv-iframe-embed"><iframe loading="lazy" title="Poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa | como fazer um poema" src="https://www.youtube.com/embed/lZHyciHOhw4?feature=oembed" width="1200" height="675" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen" data-mce-fragment="1"></iframe></div>
<blockquote><p>O poeta é um fingidor<br />
Finge tão completamente<br />
Que chega a fingir que é dor<br />
A dor que deveras sente.</p>
<p>E os que lêem o que escreve,<br />
Na dor lida sentem bem,<br />
Não as duas que ele teve,<br />
Mas só a que eles não têm.</p>
<p>E assim nas calhas de roda<br />
Gira, a entreter a razão,<br />
Esse comboio de corda<br />
Que se chama coração.</p></blockquote>
<ul>
<li><em>Confira nossa análise completa de <a href="https://comofazerumpoema.com/poema-autopsicografia-de-fernando-pessoa/">Autopsicografia, de Fernando Pessoa</a>.</em></li>
</ul>
<h3>Não sei quantas almas tenho</h3>
<blockquote><p>Não sei quantas almas tenho.<br />
Cada momento mudei.<br />
Continuamente me estranho.<br />
Nunca me vi nem achei.<br />
De tanto ser, só tenho alma.<br />
Quem tem alma não tem calma.<br />
Quem vê é só o que vê,<br />
Quem sente não é quem é,</p>
<p>Atento ao que sou e vejo,<br />
Torno-me eles e não eu.<br />
Cada meu sonho ou desejo<br />
É do que nasce e não meu.<br />
Sou minha própria paisagem,<br />
Assisto à minha passagem,<br />
Diverso, móbil e só,<br />
Não sei sentir-me onde estou.</p>
<p>Por isso, alheio, vou lendo<br />
Como páginas, meu ser<br />
O que segue não prevendo,<br />
O que passou a esquecer.<br />
Noto à margem do que li<br />
O que julguei que senti.<br />
Releio e digo: «Fui eu?»<br />
Deus sabe, porque o escreveu.</p></blockquote>
<h3>Eu</h3>
<blockquote><p>Sou louco e tenho por memória<br />
Uma longínqua e infiel lembrança<br />
De qualquer dita transitória<br />
Que sonhei ter quando criança.</p>
<p>Depois, malograda trajetória<br />
Do meu destino sem esperança,<br />
Perdi, na névoa da noite inglória<br />
O saber e o ousar da aliança.</p>
<p>Só guardo como um anel pobre<br />
Que a todo o herdado só faz rico<br />
Um frio perdido que me cobre</p>
<p>Como um céu dossel de mendigo,<br />
Na curva inútil em que fico<br />
Da estrada certa que não sigo.</p></blockquote>
<h3>Feliz dia para quem é</h3>
<blockquote><p>Feliz dia para quem é<br />
O igual do dia,<br />
E no exterior azul que vê<br />
Simples confia!</p>
<p>Azul do céu faz pena a quem<br />
Não pode ser<br />
Na alma um azul do céu também<br />
Com que viver</p>
<p>Ah, e se o verde com que estão<br />
Os montes quedos<br />
Pudesse haver no coração<br />
E em seus segredos!</p>
<p>Mas vejo quem devia estar<br />
Igual do dia<br />
Insciente e sem querer passar.<br />
Ah, a ironia</p>
<p>De só sentir a terra e o céu<br />
Tão belo ser<br />
Quem de si sente que perdeu<br />
A alma pra os ter!</p></blockquote>
<h3>Entre o sono e o sonho</h3>
<blockquote><p>Entre o sono e o sonho,<br />
Entre mim e o que em mim<br />
É o quem eu me suponho<br />
Corre um rio sem fim.</p>
<p>Passou por outras margens,<br />
Diversas mais além,<br />
Naquelas várias viagens<br />
Que todo o rio tem.</p>
<p>Chegou onde hoje habito<br />
A casa que hoje sou.<br />
Passa, se eu me medito;<br />
Se desperto, passou.</p>
<p>E quem me sinto e morre<br />
No que me liga a mim<br />
Dorme onde o rio corre —<br />
Esse rio sem fim.</p></blockquote>
<h3>Sonho. Não sei quem sou</h3>
<blockquote><p>Sonho. Não sei quem sou neste momento.<br />
Durmo sentindo-me. Na hora calma<br />
Meu pensamento esquece o pensamento,<br />
Minha alma não tem alma.</p>
<p>Se existo é um erro eu o saber. Se acordo<br />
Parece que erro. Sinto que não sei.<br />
Nada quero nem tenho nem recordo.<br />
Não tenho ser nem lei.</p>
<p>Lapso da consciência entre ilusões,<br />
Fantasmas me limitam e me contêm.<br />
Dorme insciente de alheios corações,<br />
Coração de ninguém.</p></blockquote>
<h4>Sobre Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa foi um poeta e escritor português que nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888.</p>
<p>Sua vasta obra contempla poemas, escritos filosóficos, sociológicos, astrológicos, ensaios de crítica literária, entre outros.</p>
<p>Em vida, Fernando Pessoa trabalhou como tradutor, correspondente estrangeiro, crítico literário e colaborador em revistas literárias, recusando alguns empregos para que pudesse se dedicar à literatura.</p>
<p>O poeta chegou a matricular-se na Faculdade de Letras de Lisboa, abandonando-a sem concluir o curso.</p>
<p>Sem dúvida, a grande excentricidade de Fernando Pessoa está em seus conhecidos heterônimos, que não são senão variações de sua própria personalidade, mas construídos com engenho incrível.</p>
<p>O poeta não se limitou a criar personalidades para seus heterônimos, e deu luz a uma história de vida completa para cada um deles, com data de nascimento adequando-se aos respectivos horóscopos, temperamento, estilo de vida, estilo literário e até data de óbito.</p>
<p>Fernando Pessoa faleceu em 30 de novembro de 1935, deixando em seu espólio cerca de 25 mil páginas de textos, que vêm sendo publicados lentamente desde então.</p>
<h4>Os heterônimos de Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa ficou famoso por escrever sob o nome de <a href="https://dicionario.priberam.org/heter%C3%B3nimo" target="_blank" rel="noopener">heterônimos</a>.</p>
<p>Foram muitas e muitas personalidades criadas por ele, e abaixo fazemos um resumo biográfico das quatro mais famosas:</p>
<ul>
<li>Álvaro de Campos: nascido em Tavira, em 1890. Possuía temperamento emotivo e, por isso mesmo, é às vezes eufórico e exaltado. Viajou para a Escócia e para o Oriente, educou-se na Inglaterra e formou-se engenheiro.</li>
<li>Alberto Caeiro: nascido em Lisboa, em 1889, e falecido de tuberculose. Escrevia poemas, mas não possuía educação formal. Era denominado mestre por Álvaro de Campos, que o colocava como precursor e ícone do movimento literário que ficou conhecido em Portugal como Sensacionismo. Distinguia-se pela racionalidade e objetividade, e tinha uma vida ligada ao campo e aos rebanhos.</li>
<li>Ricardo Reis: nascido no Porto, em 1887. Era médico e, segundo nos conta Pessoa, &#8220;está frequentemente no Brasil&#8221;.</li>
<li>Bernardo Soares: era um &#8220;ajudante de guarda-livros&#8221; lisboeta, autor do famosíssimo <em>Livro do desassossego</em>. Era considerado um &#8220;semi-heterônimo&#8221; por Fernando Pessoa, porque, nas palavras do poeta, &#8220;não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade&#8221;.</li>
</ul>
<h4>Obras de Fernando Pessoa</h4>
<p>Fernando Pessoa publicou poucas obras em vida e, até hoje, possui parte de seus manuscritos inéditos.</p>
<p>Seus textos em poesia e prosa já foram editados sob muitos títulos, e abaixo destacamos algumas de suas obras mais conhecidas:</p>
<ul>
<li><em>35 sonnets (1918)</em></li>
<li><em>Antinous (1918)</em></li>
<li><em>English poems (1921) — em três volumes</em></li>
<li><em>Mensagem (1934)</em></li>
<li><em>A Nova Poesia Portuguesa (1944)</em></li>
<li><em>Poemas Dramáticos (1952)</em></li>
<li><em>Cartas de Amor de Fernando Pessoa (1978)</em></li>
<li><em>Sobre Portugal (1979)</em></li>
<li><em>Textos de Crítica e de Intervenção (1980)</em></li>
<li><em>Livro do desassossego (1982)</em></li>
<li><em>Obra Poética de Fernando Pessoa (1986)</em></li>
<li><em>Primeiro Fausto (1986)</em></li>
</ul>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas curtos de Fernando Pessoa.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver o que escrevemos sobre <a href="https://comofazerumpoema.com/poema-o-que-me-doi-nao-e-fernando-pessoa/">O que me dói não é, de Fernando Pessoa</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>3 poemas de João de Deus, popularíssimo poeta lírico português!</title>
		<link>https://comofazerumpoema.com/poemas-de-joao-de-deus-poeta-lirico-portugues/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=poemas-de-joao-de-deus-poeta-lirico-portugues</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 May 2022 09:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://comofazerumpoema.com/?p=639</guid>

					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de Jo&#227;o de Deus, popular&#237;ssimo poeta l&#237;rico e pedagogo portugu&#234;s! Jo&#227;o de Deus foi um poeta portugu&#234;s do s&#233;culo XIX que teve atua&#231;&#227;o muito destacada, tamb&#233;m, como pedagogo. Sua Cartilha Maternal, obra que prop&#244;s um m&#233;todo para o ensino da leitura a crian&#231;as, obteve extraordin&#225;ria popularidade e tornou-se um&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-joao-de-deus-poeta-lirico-portugues/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">3 poemas de João de Deus, popularíssimo poeta lírico português!</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><span style="color: #808080;">Confira a nossa seleção de poemas de João de Deus, popularíssimo poeta lírico e pedagogo português!</span></em></p>
<p>João de Deus foi um poeta português do século XIX que teve atuação muito destacada, também, como pedagogo.</p>
<p>Sua <em>Cartilha Maternal</em>, obra que propôs um método para o ensino da leitura a crianças, obteve extraordinária popularidade e tornou-se um dos livros mais reimpressos da história de Portugal.</p>
<p>João de Deus obteve enorme popularidade e, ainda em vida, recebeu muitas homenagens. Sendo chamado por muitos de &#8220;poeta do amor&#8221;, este autor aproximou-se bastante, também, do folclore português, o que constitui-lhe uma marca.</p>
<p>Dito isso, preparamos uma seleção com 3 poemas de João de Deus para que você possa conhecer um pouco mais da obra deste poeta.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de João de Deus</h2>
<h3>Hino de amor</h3>
<blockquote><p>Andava um dia<br />
Em pequenino<br />
Nos arredores<br />
De Nazaré,<br />
Em companhia<br />
De São José,<br />
O bom Jesus,<br />
O Deus Menino.</p>
<p>Eis senão quando<br />
Vê num silvado<br />
Andar piando<br />
Arrepiado<br />
E esvoaçando<br />
Um rouxinol,<br />
Que uma serpente<br />
De olhar de luz<br />
Resplandecente<br />
Como a do Sol,<br />
E penetrante<br />
Como diamante,<br />
Tinha atraído,<br />
Tinha encantado.<br />
Jesus, doído<br />
Do desgraçado<br />
Do passarinho,<br />
Sai do caminho,<br />
Corre apressado,<br />
Quebra o encanto,<br />
Foge a serpente,<br />
E de repente<br />
O pobrezinho,<br />
Salvo e contente,<br />
Rompe num canto<br />
Tão requebrado,<br />
Ou antes pranto<br />
Tão soluçado,<br />
Tão repassado<br />
De gratidão,<br />
De uma alegria,<br />
Uma expansão,<br />
Uma veemência,<br />
Uma expressão,<br />
Uma cadência,<br />
Que comovia<br />
O coração!<br />
Jesus caminha<br />
No seu passeio,<br />
E a avezinha<br />
Continuando<br />
No seu gorjeio<br />
Enquanto o via;<br />
De vez em quando<br />
Lá lhe passava<br />
A dianteira<br />
E mal poisava,<br />
Não afroixava<br />
Nem repetia,<br />
Que redobrava<br />
De melodia!</p>
<p>Assim foi indo<br />
E foi seguindo.<br />
De tal maneira,<br />
Que noite e dia<br />
Numa palmeira,<br />
Que havia perto<br />
Donde morava<br />
Nosso Senhor<br />
Em pequenino<br />
(Era já certo)<br />
Ela lá estava<br />
A pobre ave<br />
Cantando o hino<br />
Terno e suave<br />
Do seu amor<br />
Ao Salvador!</p></blockquote>
<h3>Melancolia</h3>
<blockquote><p>Oh doce luz! oh lua!<br />
Que luz suave a tua,<br />
E como se insinua<br />
Em alma que fluctua<br />
De engano em desengano!<br />
Oh criação sublime!<br />
A tua luz reprime<br />
As tentações do crime,<br />
E à dor que nos oprime<br />
Abres-lhe um oceano!</p>
<p>É esse céo um lago,<br />
E tu, reflexo vago<br />
Dum sol, como o que eu trago<br />
No seio, onde o afago,<br />
No seio, onde o aperto?<br />
Oh luz órfã do dia!<br />
Que mística harmonia<br />
Há nessa luz tão fria,<br />
E a sombra que me guia<br />
Neste areal deserto!</p>
<p>Embora as nuvens trajem<br />
De dia outra roupagem,<br />
O sol, de que és imagem,<br />
Não tem essa linguagem<br />
Que encanta, que namora!<br />
Fita-te a gente, estuda,<br />
(Sem medo que se iluda)<br />
Essa linguagem muda&#8230;<br />
O teu olhar ajuda&#8230;<br />
E a gente sente e chora!</p>
<p>Ah! sempre que descrevas<br />
A orbita que levas,<br />
Confia-me o que escrevas<br />
De quanto vês nas trevas,<br />
Que a luz do sol encobre!<br />
As víctimas, que escutas,<br />
De traças mais astutas<br />
Que as dessas feras brutas&#8230;<br />
E as lastimas, as luctas<br />
Da órfã e do pobre!</p></blockquote>
<h3>A caridade</h3>
<blockquote><p>Eu podia falar todas as línguas<br />
Dos homens e dos anjos;<br />
Logo que não tivesse caridade,<br />
Já não passava de um metal que tine,<br />
De um sino vão que soa.</p>
<p>Podia ter o dom da profecia,<br />
Saber o mais possível,<br />
Ter fé capaz de transportar montanhas;<br />
Logo que eu não tivesse caridade,<br />
Já não valia nada!</p>
<p>Eu podia gastar toda a fortuna<br />
A bem dos miseráveis,<br />
Deixar que me arrojassem vivo às chamas;<br />
Logo que eu não tivesse caridade,<br />
De nada me servia!</p>
<p>A caridade é dócil, é benévola,<br />
Nunca foi invejosa,<br />
Nunca procede temerariamente,<br />
Nunca se ensoberbece!</p>
<p>Não é ambiciosa; não trabalha<br />
Em seu proveito próprio; não se irrita;<br />
Nunca suspeita mal!</p>
<p>Nunca folgou de ver uma injustiça;<br />
Folga com a verdade!</p>
<p>Tolera tudo! Tudo crê e espera!<br />
Em suma tudo sofre!</p></blockquote>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de João de Deus.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver a nossa coletânea de <a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-fernando-namora-medico-portugues/">poemas de Fernando Namora</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>5 poemas de Fernando Namora, escritor e médico português!</title>
		<link>https://comofazerumpoema.com/poemas-de-fernando-namora-medico-portugues/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=poemas-de-fernando-namora-medico-portugues</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 May 2022 16:16:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://comofazerumpoema.com/?p=635</guid>

					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de Fernando Namora, escritor e m&#233;dico portugu&#234;s do s&#233;culo XX. Fernando Namora, escritor, poeta e m&#233;dico portugu&#234;s, &#233; um dos nomes de maior destaque na literatura portuguesa do s&#233;culo XX. Sua obra, vasta, foi trabalho de cinco d&#233;cadas e re&#250;ne variados elementos e estilos, mas sem d&#250;vida Fernando Namora&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-fernando-namora-medico-portugues/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">5 poemas de Fernando Namora, escritor e médico português!</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><span style="color: #808080;">Confira a nossa seleção de poemas de Fernando Namora, escritor e médico português do século XX.</span></em></p>
<p>Fernando Namora, escritor, poeta e médico português, é um dos nomes de maior destaque na literatura portuguesa do século XX.</p>
<p>Sua obra, vasta, foi trabalho de cinco décadas e reúne variados elementos e estilos, mas sem dúvida Fernando Namora é autor que destaca-se pela penetração psicológica e pela sensibilidade poética.</p>
<p>Vários livros de Fernando Namora tiveram ampla divulgação e foram alvos de traduções quando o autor ainda era vivo. Algumas de suas obras, também, receberam adaptações ao cinema, a partir da década de 60.</p>
<p>Sendo assim, preparamos uma seleção com 5 poemas de Fernando Namora para que você possa conhecer um pouco mais da obra deste poeta.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de Fernando Namora</h2>
<h3>Por todos os caminhos do mundo</h3>
<blockquote><p>A minha poesia é assim como uma vida que vagueia<br />
pelo mundo,</p>
<p>por todos os caminhos do mundo,<br />
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,<br />
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar<br />
num jardim nocturno,</p>
<p>ora um deserto que o simum veio modificar,<br />
ora a miragem de se estar perto do oásis,<br />
ora os pés cansados, sem forças para além.</p>
<p>Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe<br />
o rumo e a hora de o atingir,<br />
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado<br />
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,<br />
a doçura de quem nada tem a regatear,<br />
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.</p>
<p>Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo<br />
norte.<br />
Que ninguém me peça nada. Nada.<br />
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,<br />
com a minha noite que nem sempre é noite<br />
como a alma quer.</p>
<p>Não sei caminhos de cor.</p></blockquote>
<h3>Poema cansado de certos momentos</h3>
<blockquote><p>Foi-se tudo<br />
como areia fina escoada pelos dedos.<br />
Mãe! aqui me tens,<br />
metade de mim,<br />
sem saber que metade me pertence.<br />
Aqui me tens,<br />
de gestos saqueados,<br />
onde resta a saudade de ti<br />
e do teu mundo de medos.<br />
Meus braços, vê-os, estão gastos<br />
de pedir luz<br />
e de roubar distâncias.<br />
Meus braços<br />
cruzados<br />
em cruz de calvário dos meus degredos.<br />
Ai que isto de correr pela vida,<br />
dissipando a riqueza que me deste,<br />
de levar em cada beijo<br />
a pureza que pariste e embalaste,<br />
ai, mãe, só um louco ou um Messias<br />
estendendo a face de justo</p>
<p>para os homens cuspirem o fel das veias,<br />
só um louco, ou um poeta ou um Cristo<br />
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram<br />
e, embora rasgado, beber o perfume<br />
e continuar cantando.<br />
Mãe! tu nunca previste<br />
as geadas e os bichos<br />
roendo os campos adubados<br />
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos<br />
pela flor menina dos meus prados.<br />
E assim, geraste-me despido<br />
como as ervas,<br />
e não olhaste os pegos nem as cobras,<br />
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.<br />
De mão nua, entregaste-me ao destino.<br />
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.<br />
E sem elmos ou gibões,<br />
nem lutei nem vivi:<br />
fiquei quieto, absorto, em lágrimas<br />
— e lá ao fundo esperavam-me valados<br />
e chacais rancorosos.</p>
<p>Mãe! aqui me tens,<br />
restos de mim.<br />
Guarda-me contigo agora,<br />
que és tu a minha justiça e o exílio<br />
do perdido e do achado.<br />
Guarda-me contigo agora<br />
e adormece-me as feridas<br />
com as guitarras do fado.</p>
<p>Mas caberá no teu regaço<br />
o fantasma do perdido?</p></blockquote>
<h3>Poema da utopia</h3>
<blockquote><p>A noite caiu sem manchas e sem culpa.</p>
<p>Os homens tiraram as máscaras de bons actores.</p>
<p>Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.</p>
<p>No alto, a utópica lua, vela comigo<br />
e sonha inutilmente com a verdade das coisas.</p>
<p>&#8211; Noite! Deixa-nos também dormir&#8230;</p></blockquote>
<h3>Balada de sempre</h3>
<blockquote><p>Espero a tua vinda<br />
a tua vinda,<br />
em dia de lua cheia.</p>
<p>Debruço-me sobre a noite<br />
a ver a lua a crescer, a crescer&#8230;</p>
<p>Espero o momento da chegada<br />
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas&#8230;</p>
<p>Rasgarás nuvens de ruas densas,<br />
Alagarás vielas de bêbados transformadores.<br />
Saltarás ribeiros, mares, relevos&#8230;<br />
&#8211; A tua alma não morre<br />
aos medos e às sombras!-</p>
<p>Mas&#8230;,<br />
Enquanto deixo a janela aberta<br />
para entrares,<br />
o mar,<br />
aí além,<br />
sempre duvidoso,<br />
desenha interrogações na areia molhada&#8230;</p></blockquote>
<h3>Um poema que se perdeu</h3>
<blockquote><p>Hoje o dia é um dia chuvoso e triste<br />
amortalhado<br />
Naquela monotonia doente dos grandes dias.</p>
<p>Hoje o dia&#8230;<br />
(a pena caiu-me das mãos)</p>
<p>Acabou-se o poema no papel.<br />
Cá por dentro<br />
Continua&#8230;</p>
<p>Oh! este marulhar das almas no silêncio!</p></blockquote>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de Fernando Namora.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver a nossa coletânea de <a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-guerra-junqueiro-poetas-populares/">poemas de Guerra Junqueiro</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>4 poemas de Guerra Junqueiro, um dos poetas mais populares de Portugal!</title>
		<link>https://comofazerumpoema.com/poemas-de-guerra-junqueiro-poetas-populares/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=poemas-de-guerra-junqueiro-poetas-populares</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 May 2022 18:59:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://comofazerumpoema.com/?p=637</guid>

					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de Guerra Junqueiro, um dos poetas mais populares de Portugal! Ab&#237;lio Manuel Guerra Junqueiro, poeta e panflet&#225;rio, &#233; sem d&#250;vida um dos nomes mais conhecidos da literatura em Portugal. Formado em direito, este poeta atuou como pol&#237;tico, funcion&#225;rio p&#250;blico, deputado e jornalista, sendo embaixador portugu&#234;s na Su&#237;&#231;a durante quase&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-guerra-junqueiro-poetas-populares/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">4 poemas de Guerra Junqueiro, um dos poetas mais populares de Portugal!</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><span style="color: #808080;">Confira a nossa seleção de poemas de Guerra Junqueiro, um dos poetas mais populares de Portugal!</span></em></p>
<p>Abílio Manuel Guerra Junqueiro, poeta e panfletário, é sem dúvida um dos nomes mais conhecidos da literatura em Portugal.</p>
<p>Formado em direito, este poeta atuou como político, funcionário público, deputado e jornalista, sendo embaixador português na Suíça durante quase 4 anos.</p>
<p>Sua obra literária, conectada intimamente com a política da época, teve importante influência para criar o ambiente que propiciou a implantação da república em Portugal.</p>
<p>Mas além das questões mundanas, Guerra Junqueiro provou-se capaz de alçar voos muito mais altos na poesia, como por exemplo em <em>&#8220;Oração à Luz&#8221;</em>, obra dotada de um simbolismo impressionante, que Fernando Pessoa classificou como &#8220;uma das maiores poesias metafísicas do mundo&#8221;.</p>
<p>Sendo assim, preparamos uma seleção com 4 poemas de Guerra Junqueiro para que você possa conhecer um pouco mais da obra deste poeta português.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de Guerra Junqueiro</h2>
<h3>Vendo-a sorrir</h3>
<blockquote><p><em>(A minha filha)</em></p>
<p>Filha, quando sorris, iluminas a casa<br />
Dum celeste esplendor.<br />
A alegria é na infância o que na ave é asa<br />
E perfume na flor.</p>
<p>Ó doirada alegria, ó virgindade santa<br />
Do sorriso infantil!<br />
Quando o teu lábio ri, filha, a minha alma canta<br />
Todo o poema de Abril.</p>
<p>Ao ver esse sorriso, ó filha, se concentro<br />
Em ti o meu olhar,<br />
Engolfa-se-me o céu azul pela alma dentro<br />
Com pombas a voar.</p>
<p>Sou o Sol que agoniza, e tu, meu anjo loiro,<br />
És o Sol que se eleva.<br />
Inunda-me de luz, sorri, polvilha de oiro<br />
O meu manto de treva!</p></blockquote>
<h3>A escola portuguesa</h3>
<blockquote><p>Eis as crianças vermelhas<br />
Na sua hedionda prisão:<br />
Doirado enxame de abelhas!<br />
O mestre-escola é o zangão.</p>
<p>Em duros bancos de pinho<br />
Senta-se a turba sonora<br />
Dos corpos feitos de arminho,<br />
Das almas feitas d&#8217;aurora.</p>
<p>Soletram versos e prosas<br />
Horríveis; contudo, ao lê-las<br />
Daquelas bocas de rosas<br />
Saem murmúrios de estrela.</p>
<p>Contemplam de quando em quando,<br />
E com inveja, Senhor!<br />
As andorinhas passando<br />
Do azul no livre esplendor.</p>
<p>Oh, que existência doirada<br />
Lá cima, no azul, na glória,<br />
Sem cartilhas, sem tabuada,<br />
Sem mestre e sem palmatória!</p>
<p>E como os dias são longos<br />
Nestas prisões sepulcrais!<br />
Abrem a boca os ditongos,<br />
E as cifras tristes dão ais!</p>
<p>Desgraçadas toutinegras,<br />
Que insuportáveis martírios!<br />
João Félix co&#8217;as unhas negras,<br />
Mostrando as vogais aos lírios!</p>
<p>Como querem que despontem<br />
Os frutos na escola aldeã,<br />
Se o nome do mestre é — Ontem<br />
E o do discíp&#8217;lo — Amanhã!</p>
<p>Como é que há-de na campina<br />
Surgir o trigal maduro,<br />
Se é o Passado quem ensina<br />
O b a ba ao Futuro!</p>
<p>Entregar a um tarimbeiro<br />
Um coração infantil!<br />
Fazer o calvo Janeiro<br />
Preceptor do loiro Abril!</p>
<p>Barbaridade irrisória,<br />
Estúpido despotismo!<br />
Meter uma palmatória<br />
Nas mãos dum anacronismo!</p>
<p>A palmatória, o açoite,<br />
A estupidez decretada!<br />
A lei incumbindo a Noite<br />
Da educação da Alvoradal</p>
<p>Gravai na vossa lembrança<br />
E meditai com horror,<br />
Que o homem sai da criança<br />
Como o fruto sai da flor.</p>
<p>Da pequenina semente,<br />
Que a escola régia destrói,<br />
Pode fazer-se igualmente<br />
Ou o assassino ou o herói.</p>
<p>Desta escola a uma prisão<br />
Vai um caminho agoireiro:<br />
A escola produz o grão<br />
De que a enxovia é o celeiro.</p>
<p>Deixai ver o Sol doirado<br />
À infância, eis o que eu vos peço.<br />
Esta escola é um atentado,<br />
Um roubo feito ao progresso.</p>
<p>Vamos, arrancai a infância<br />
Da lama deste paul;<br />
Rasgai no muro Ignorância<br />
Trezentas portas de azul!</p>
<p>O professor asinino,<br />
Segundo entre nós ele é,<br />
Dum anjo extrai um cretino,<br />
Dum cretino um chimpanzé.</p>
<p>Empunhando as rijas férulas<br />
Vós esmagais e partis<br />
As crianças — essas pérolas<br />
Na escola — esse almofariz.</p>
<p>Isto escolas!&#8230; que indecência<br />
Escolas, esta farsada!<br />
São açougues de inocência,<br />
São talhos d&#8217;anjos, mais nada.</p></blockquote>
<h3>Regresso ao lar</h3>
<blockquote><p>Ai, há quantos anos que eu parti chorando<br />
deste meu saudoso, carinhoso lar!&#8230;<br />
Foi há vinte?&#8230; Há trinta?&#8230; Nem eu sei já quando!&#8230;<br />
Minha velha ama, que me estás fitando,<br />
canta-me cantigas para me eu lembrar!&#8230;</p>
<p>Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida&#8230;<br />
Só achei enganos, decepções, pesar&#8230;<br />
Oh, a ingênua alma tão desiludida!&#8230;<br />
Minha velha ama, com a voz dorida.<br />
canta-me cantigas de me adormentar!&#8230;</p>
<p>Trago de amargura o coração desfeito&#8230;<br />
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!<br />
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!&#8230;<br />
Minha velha ama, que me deste o peito,<br />
canta-me cantigas para me embalar!&#8230;</p>
<p>Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho<br />
pedrarias de astros, gemas de luar&#8230;<br />
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!&#8230;<br />
Minha velha ama, sou um pobrezinho&#8230;<br />
Canta-me cantigas de fazer chorar!&#8230;</p>
<p>Como antigamente, no regaço amado<br />
(Venho morto, morto!&#8230;), deixa-me deitar!<br />
Ai o teu menino como está mudado!<br />
Minha velha ama, como está mudado!<br />
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!&#8230;</p>
<p>Canta-me cantigas manso, muito manso&#8230;<br />
tristes, muito tristes, como à noite o mar&#8230;<br />
Canta-me cantigas para ver se alcanço<br />
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,<br />
quando a morte, em breve, ma vier buscar!</p></blockquote>
<h3>Morena</h3>
<blockquote><p>Não negues, confessa<br />
Que tens certa pena<br />
Que as mais raparigas<br />
Te chamem morena.</p>
<p>Pois eu não gostava,<br />
Parece-me a mim,<br />
De ver o teu rosto<br />
Da cor do jasmim.</p>
<p>Eu não&#8230; mas enfim<br />
É fraca a razão,<br />
Pois pouco te importa<br />
Que eu goste ou que não.</p>
<p>Mas olha as violetas<br />
Que, sendo umas pretas,<br />
O cheiro que têm!<br />
Vê lá que seria,<br />
Se Deus as fizesse<br />
Morenas também!</p>
<p>Tu és a mais rara<br />
De todas as rosas;<br />
E as coisas mais raras<br />
São mais preciosas.</p>
<p>Há rosas dobradas<br />
E há-as singelas;<br />
Mas são todas elas<br />
Azuis, amarelas,<br />
De cor de açucenas,<br />
De muita outra cor;<br />
Mas rosas morenas,<br />
Só tu, linda flor.</p>
<p>E olha que foram<br />
Morenas e bem<br />
As moças mais lindas<br />
De Jerusalém.<br />
E a Virgem Maria<br />
Não sei&#8230; mas seria<br />
Morena também.</p>
<p>Moreno era Cristo.<br />
Vê lá depois disto<br />
Se ainda tens pena<br />
Que as mais raparigas<br />
Te chamem morena!</p></blockquote>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de Guerra Junqueiro.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver a nossa coletânea de <a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-francisco-bingre-poeta-arcadismo/">poemas de Francisco Bingre</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>7 poemas de Francisco Bingre, poeta do Arcadismo português</title>
		<link>https://comofazerumpoema.com/poemas-de-francisco-bingre-poeta-arcadismo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=poemas-de-francisco-bingre-poeta-arcadismo</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 May 2022 18:04:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
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					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de Francisco Bingre, destacado representante do Arcadismo portugu&#234;s! Francisco Bingre &#233; um poeta que talvez n&#227;o seja t&#227;o conhecido como deveria. Contempor&#226;neo de Bocage, este poeta arc&#225;dico portugu&#234;s deixou a terra rodeado de prest&#237;gio entre a classe letrada de Portugal, mas o prest&#237;gio parece ter esmorecido com o tempo.&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-francisco-bingre-poeta-arcadismo/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">7 poemas de Francisco Bingre, poeta do Arcadismo português</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><span style="color: #808080;">Confira a nossa seleção de poemas de Francisco Bingre, destacado representante do Arcadismo português!</span></em></p>
<p>Francisco Bingre é um poeta que talvez não seja tão conhecido como deveria.</p>
<p>Contemporâneo de Bocage, este poeta arcádico português deixou a terra rodeado de prestígio entre a classe letrada de Portugal, mas o prestígio parece ter esmorecido com o tempo.</p>
<p>Em vida, Francisco Bingre foi fundador da renomada Academia de Belas Letras, também conhecida como Nova Arcádia de Lisboa ou Arcádia Lusitana, que reunia várias das mentes literárias mais proeminentes da época.</p>
<p>Sob esta influência, publicou uma vasta obra que inclui sonetos, odes, sátiras, elegias, fábulas, entre outros, e curiosamente grande parte desta variada produção sequer foi publicada até o presente século, restando ainda manuscritos absolutamente desconhecidos do público e da crítica.</p>
<p>Dito isso, preparamos uma seleção com 7 poemas de Francisco Bingre para que você possa conhecer um pouco mais da obra deste poeta português.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de Francisco Bingre</h2>
<h3>O Avarento</h3>
<blockquote><p>No meio de seus cofres, desvelado,<br />
Co&#8217;as tampas levantadas, rasas de ouro,<br />
Cevando a vista está no metal louro<br />
Dele o cioso Avarento namorado.</p>
<p>Temendo que lhe venha a ser roubado,<br />
Emprega alma e vida em seu tesouro,<br />
Girando com os olhos, qual besouro,<br />
Zumbindo sem cessar, afervorado.</p>
<p>Fechado nele está, com sete portas,<br />
Com temor de algum fero arrombamento<br />
De astutas invenções, de ideias tortas.</p>
<p>Não emprega em mais nada o pensamento.<br />
Cega ambição de vãs riquezas mortas!<br />
Quão infeliz não és, louco avarento!</p></blockquote>
<h3>Fogo</h3>
<blockquote><p>Faísca luminar da etérea chama<br />
Que acendes nossa máquina vivente,<br />
Que fazes nossa vista refulgente<br />
Com eléctrico gás, com subtil flama:</p>
<p>A nossa construção por ti se inflama;<br />
Por ti, o nosso sangue gira quente;<br />
Por ti, as fibras tem vigor potente,<br />
Teu vivo ardor por elas se derrama.</p>
<p>Tu, Fogo animador, nos vigorizas,<br />
E à maneira de um voltejante rio,<br />
Por todo o nosso corpo te deslizas.</p>
<p>O homem, só por ti tem força e brio<br />
Mas, se tu o teu giro finalizas,<br />
Quando a chama se apaga, ele cai frio.</p></blockquote>
<h3>Deus, Infinito ser</h3>
<blockquote><p>Deus, Infinito ser, nunca criado,<br />
Sem princípio, nem fim, na Majestade<br />
Que no trono da Eterna Divindade<br />
Tens o Mundo num dedo dependurado:</p>
<p>Tu estavas em Ti, não foste nado,<br />
O teu Ser era a tua Imensidade,<br />
Tu tiveste por berço a Eternidade,<br />
Tu, sem tempo, em Ti mesmo eras gerado!</p>
<p>Tu és um fogo que arde sem matéria,<br />
Tu és perpétua luz, que não desmaia<br />
Fulgindo, sem cessar, na sala etérea!</p>
<p>Tu és um mar de amor, que não tem praia,<br />
Trovão assustador da esfera aérea,<br />
Rei dum Reino Imortal, que não tem raia!&#8230;</p></blockquote>
<h3>Basta, não posso mais, mundo enganoso!</h3>
<blockquote><p>Basta, não posso mais, Mundo enganoso!<br />
Findaram para mim teus vãos prazeres.<br />
Envelheci com eles, que mais queres<br />
Deste escravo ancião, fraco e rugoso?</p>
<p>Se o teu carro triunfal puxei, fogoso,<br />
Quando inda forças tinha, nada esperes<br />
Deste caduco mais: quanto fizeres<br />
Para outra vez servir-te, é duvidoso.</p>
<p>Enquanto não pensei, fui encantado:<br />
Bebendo em taças de ouro o teu engano,<br />
Eu fui, por ti, em bruto transformado.</p>
<p>Graças, graças ao santo Desengano,<br />
Que a forma de homem outra vez me há dado,<br />
Livrando-me de um mágico tirano!</p></blockquote>
<h3>Paciência, um sofrimento voluntário</h3>
<blockquote><p>Tu és, ó Paciência, um sofrimento<br />
Voluntário, fiel, bem ordenado,<br />
Da conhecida sem razão tirado,<br />
De um constante varão nobre ornamento.</p>
<p>Tu, recolhendo n&#8217;alma o pensamento,<br />
Suportas com valor o Tempo irado.<br />
Tu sustentas, com ânimo esforçado,<br />
Todo o peso do mal, no bem atento.</p>
<p>Magnânima tu és, tu és Constância,<br />
Cedro que não derruba a tempestade,<br />
Rocha, onde a fúria quebra o mar com ânsia.</p>
<p>Tu triunfas da mesma Adversidade.<br />
Subjugando as paixões co&#8217;a Tolerância,<br />
Tu vences os ardis da vil Maldade.</p></blockquote>
<h3>Quanto é melhor calar, que ser ouvido</h3>
<blockquote><p>Silêncio divinal, eu te respeito!<br />
Tu, meu Númen serás, serás meu guia<br />
Se até &#8216;qui, insensato, errei a via<br />
De Harpócrates, quebrando o são preceito,</p>
<p>Hoje à vista do mal que tenho feito,<br />
Em ser palreira pega em demasia,<br />
Abraçarei a sã Filosofia<br />
Pitagórica escola de proveito.</p>
<p>Tenho visto que males tem nascido<br />
Pelo muito falar: tenho sondado<br />
Quanto é melhor calar, que ser ouvido.</p>
<p>Minha língua vai ter férreo cadeado.<br />
Eu a quero enfrear, arrependido<br />
De tanto sem proveito ter falado.</p></blockquote>
<h3>A fúria mais datal e mais medonha</h3>
<blockquote><p>Das Fúrias infernais foi sempre a Inveja<br />
No mundo a mais fatal e a mais medonha,<br />
Pois faz dos bens dos outros a peçonha<br />
Com que a si mesma se envenena e peja.</p>
<p>Com ira e com furor, raivosa, arqueja,<br />
Com vinganças, traições, com ódios sonha.<br />
Onde quer que se encoste e os olhos ponha,<br />
Tragar as ditas dos mortais deseja.</p>
<p>Mãe dos males fatais à Sociedade,<br />
Vidas, honras destrói, cismas fomenta,<br />
Nutrindo n&#8217;alma as serpes da Maldade.</p>
<p>O próprio coração que come a alenta,<br />
Vive afogada em ondas de ansiedade,<br />
Da frenética raiva se alimenta.</p></blockquote>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de Francisco Bingre.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver a nossa coletânea de <a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-pedro-homem-de-mello-poeta-lirico/">poemas de Pedro Homem de Mello</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>7 poemas de Pedro Homem de Mello, prolífico poeta lírico português</title>
		<link>https://comofazerumpoema.com/poemas-de-pedro-homem-de-mello-poeta-lirico/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=poemas-de-pedro-homem-de-mello-poeta-lirico</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 May 2022 15:27:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
		<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://comofazerumpoema.com/?p=641</guid>

					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de Pedro Homem de Mello, artista portugu&#234;s de vasta obra po&#233;tica. Pedro Homem de Mello foi uma das figuras mais destacadas da literatura em l&#237;ngua portuguesa no s&#233;culo XX. Autor de uma vasta obra po&#233;tica, que ultrapassa trinta volumes, Pedro Homem de Mello atuou, tamb&#233;m, como professor e jornalista.&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-pedro-homem-de-mello-poeta-lirico/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">7 poemas de Pedro Homem de Mello, prolífico poeta lírico português</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><span style="color: #808080;">Confira a nossa seleção de poemas de Pedro Homem de Mello, artista português de vasta obra poética.</span></em></p>
<p>Pedro Homem de Mello foi uma das figuras mais destacadas da literatura em língua portuguesa no século XX.</p>
<p>Autor de uma vasta obra poética, que ultrapassa trinta volumes, Pedro Homem de Mello atuou, também, como professor e jornalista.</p>
<p>Mas o que talvez seja o seu traço mais distintivo, para além da criação poética, é o grande interesse que nutriu pelo folclore português, estudando-o em profundidade e produzindo diversos ensaios originais e muito interessantes.</p>
<p>Dito isso, preparamos uma seleção com 7 poemas de Pedro Homem de Mello para que você possa conhecer um pouco mais da obra deste poeta lírico português.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de Pedro Homem de Mello</h2>
<h3>Solidão</h3>
<blockquote><p>Ó solidão! À noite, quando, estranho,<br />
Vagueio sem destino, pelas ruas,<br />
O mar todo é de pedra&#8230; E continuas.<br />
Todo o vento é poeira&#8230; E continuas.<br />
A Lua, fria, pesa&#8230; E continuas.<br />
Uma hora passa e outra&#8230; E continuas.<br />
Nas minhas mãos vazias continuas,<br />
No meu sexo indomável continuas,<br />
Na minha branca insônia continuas,<br />
Paro como quem foge. E continuas.<br />
Chamo por toda a gente. E continuas.<br />
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.<br />
Invento um verso&#8230; E rasgo-o. E continuas.<br />
Eterna, continuas&#8230; Mas sei por fim que sou do teu tamanho!</p></blockquote>
<h3>Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos</h3>
<blockquote><p>Fui pedir um sonho ao jardim dos mortos.<br />
Quis pedi-lo, aos vivos. Disseram-me que não.<br />
Os mortos não sabem, lá onde é que estão,<br />
Que neles se enfeitam os meus braços tortos.</p>
<p>Os mortos dormiam&#8230; Passei-lhes ao lado.<br />
Arranquei-lhes tudo, tudo quanto pude;<br />
Páginas intactas — um livro fechado<br />
Em cada ataúde.</p>
<p>Ai as pedras raras! As pedras preciosas!<br />
Relâmpagos verdes por baixo do mar!<br />
A sombra, o perfume dos cravos, das rosas<br />
Que os dedos, já hirtos, teimavam guardar!</p>
<p>Minha alma é um cadáver pálido, desfeito.<br />
As suas ossadas<br />
Quem sabe onde estão?<br />
Trago as mãos cruzadas,<br />
Pesam-me no peito.<br />
Quem sabe se a lama onde hoje me deito<br />
Dará flor aos vivos que dizem que não?</p></blockquote>
<h3>Simplicidade</h3>
<blockquote><p>Queria, queria<br />
Ter a singeleza<br />
Das vidas sem alma<br />
E a lúcida calma<br />
Da matéria presa.</p>
<p>Queria, queria<br />
Ser igual ao peixe<br />
Que livre nas águas<br />
Se mexe;</p>
<p>Ser igual em som,<br />
Ser igual em graça<br />
Ao pássaro leve,<br />
Que esvoaça&#8230;</p>
<p>Tudo isso eu queria!<br />
(Ser fraco é ser forte).<br />
Queria viver<br />
E depois morrer<br />
Sem nunca aprender<br />
A gostar da morte.</p></blockquote>
<h3>Encontro</h3>
<blockquote><p>Felicidade, agarrei-te<br />
Como um cão, pelo cachaço!<br />
E, contigo, em mar de azeite<br />
Afoguei-me, passo a passo&#8230;</p>
<p>Dei à minha alma a preguiça<br />
Que o meu corpo não tivera.<br />
E foi, assim, que, submissa,<br />
Vi chegar a Primavera&#8230;</p>
<p>Quem a colher que a arrecade<br />
(Há, nela, um segredo lento&#8230;)<br />
Ó frágil felicidade!<br />
— Palavra que leva o vento,</p>
<p>E, depois, como se a ideia<br />
De, nos dedos, a ter tido<br />
Bastasse, por fim, larguei-a,<br />
Sem ficar arrependido&#8230;</p></blockquote>
<h3>Povo</h3>
<blockquote><p>Povo que lavas no rio,<br />
Que vais às feiras e à tenda,<br />
Que talhas com teu machado<br />
As tábuas do meu caixão,<br />
Pode haver quem te defenda,<br />
Quem turve o teu ar sadio,<br />
Quem compre o teu chão sagrado,<br />
Mas a tua vida, não!</p>
<p>Meu cravo branco na orelha!<br />
Minha camélia vermelha!<br />
Meu verde manjericão!<br />
Ó natureza vadia!<br />
Vejo uma fotografia&#8230;<br />
Mas a tua vida, não!</p>
<p>Fui ter à mesa redonda,<br />
Bebendo em malga que esconda<br />
O beijo, de mão em mão&#8230;<br />
Água pura, fruto agreste,<br />
Fora o vinho que me deste,<br />
Mas a tua vida, não!</p>
<p>Procissões de praia e monte,<br />
Areais, píncaros, passos<br />
Atrás dos quais os meus vão!<br />
Que é dos cântaros da fonte?<br />
Guardo o jeito desses braços&#8230;<br />
Mas a tua vida, não!</p>
<p>Aromas de urze e de lama!<br />
Dormi com eles na cama&#8230;<br />
Tive a mesma condição.<br />
Bruxas e lobas, estrelas!<br />
Tive o dom de conhecê-las&#8230;<br />
Mas a tua vida, não!</p>
<p>Subi às frias montanhas,<br />
Pelas veredas estranhas<br />
Onde os meus olhos estão.<br />
Rasguei certo corpo ao meio&#8230;<br />
Vi certa curva em teu seio&#8230;<br />
Mas a tua vida, não!</p>
<p>Só tu! Só tu és verdade!<br />
Quando o remorso me invade<br />
E me leva à confissão&#8230;<br />
Povo! Povo! eu te pertenço.<br />
Deste-me alturas de incenso,<br />
Mas a tua vida, não!</p>
<p>Povo que lavas no rio,<br />
Que vais às feiras e à tenda,<br />
Que talhas com teu machado,<br />
As tábuas do meu caixão,<br />
Pode haver quem te defenda,<br />
Quem turve o teu ar sadio,<br />
Quem compre o teu chão sagrado,<br />
Mas a tua vida, não!</p></blockquote>
<h3>Não choreis os mortos</h3>
<blockquote><p>Não choreis nunca os mortos esquecidos<br />
Na funda escuridão das sepulturas.<br />
Deixai crescer, à solta, as ervas duras<br />
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.</p>
<p>E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,<br />
Agonizar&#8230; guardai, longe, as doçuras<br />
Das vossas orações, calmas e puras,<br />
Para os que vivem, nudos e vencidos.</p>
<p>Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,<br />
Da multidão sem fim dos que são vivos,<br />
Dos tristes que não podem esquecer.</p>
<p>E, ao meditar, então, na paz da Morte,<br />
Vereis, talvez, como é suave a sorte<br />
Daqueles que deixaram de sofrer.</p></blockquote>
<h3>Canção à ausente</h3>
<blockquote><p>Para te amar ensaiei os meus lábios&#8230;<br />
Deixei de pronunciar palavras duras.<br />
Para te amar ensaiei os meus lábios!</p>
<p>Para tocar-te ensaiei os meus dedos&#8230;<br />
Banhei-os na água límpida das fontes.<br />
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!</p>
<p>Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!<br />
Pus-me a escutar as vozes do silêncio&#8230;<br />
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!</p>
<p>E a vida foi passando, foi passando&#8230;<br />
E, à força de esperar a tua vinda,<br />
De cada braço fiz mudo cipreste.</p>
<p>A vida foi passando, foi passando&#8230;<br />
E nunca mais vieste!</p></blockquote>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de Pedro Homem de Mello.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver a nossa coletânea de <a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-eugenio-de-andrade-contemporaneo/">poemas de Eugénio de Andrade</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>6 poemas de Eugénio de Andrade, grande poeta português contemporâneo</title>
		<link>https://comofazerumpoema.com/poemas-de-eugenio-de-andrade-contemporaneo/?utm_source=rss&#038;utm_medium=rss&#038;utm_campaign=poemas-de-eugenio-de-andrade-contemporaneo</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[como fazer um poema]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 May 2022 18:40:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[citações e poemas]]></category>
		<category><![CDATA[poetas portugueses]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://comofazerumpoema.com/?p=634</guid>

					<description><![CDATA[Confira a nossa sele&#231;&#227;o de poemas de Eug&#233;nio de Andrade, grande poeta portugu&#234;s contempor&#226;neo. Eug&#233;nio de Andrade foi um poeta portugu&#234;s falecido em 2005 que est&#225;, sem d&#250;vida, entre os maiores poetas portugueses contempor&#226;neos. Sua obra liter&#225;ria inclui mais de vinte volumes de poesia, algumas obras em prosa e tradu&#231;&#245;es de Federico Garcia Lorca, Jorge&#8230;&#160;<a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-eugenio-de-andrade-contemporaneo/" rel="bookmark">Ler mais &#187;<span class="screen-reader-text">6 poemas de Eugénio de Andrade, grande poeta português contemporâneo</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em><span style="color: #808080;">Confira a nossa seleção de poemas de Eugénio de Andrade, grande poeta português contemporâneo.</span></em></p>
<p>Eugénio de Andrade foi um poeta português falecido em 2005 que está, sem dúvida, entre os maiores poetas portugueses contemporâneos.</p>
<p>Sua obra literária inclui mais de vinte volumes de poesia, algumas obras em prosa e traduções de Federico Garcia Lorca, Jorge Luís Borges e René Char para o português.</p>
<p>Entre os vários prêmios que recebeu durante sua vida, destacamos o renomado Prêmio Camões, conferido a Eugénio de Andrade no ano de 2001.</p>
<p>Dito isso, preparamos uma seleção com 5 poemas de Eugénio de Andrade para que você possa conhecer um pouco mais da obra deste poeta.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<h2>Poemas de Eugénio de Andrade</h2>
<h3>Urgentemente</h3>
<blockquote><p>É urgente o amor<br />
É urgente um barco no mar</p>
<p>É urgente destruir certas palavras,<br />
ódio, solidão e crueldade,<br />
alguns lamentos, muitas espadas.</p>
<p>É urgente inventar alegria,<br />
multiplicar os beijos, as searas,<br />
é urgente descobrir rosas e rios<br />
e manhãs claras.</p>
<p>Cai o silêncio nos ombros e a luz<br />
impura, até doer.<br />
É urgente o amor, é urgente<br />
permanecer.</p></blockquote>
<h3>Os amigos</h3>
<blockquote><p>Os amigos amei<br />
despido de ternura<br />
fatigada;<br />
uns iam, outros vinham,<br />
a nenhum perguntava<br />
porque partia,<br />
porque ficava;<br />
era pouco o que tinha,<br />
pouco o que dava,<br />
mas também só queria<br />
partilhar<br />
a sede de alegria —<br />
por mais amarga.</p></blockquote>
<h3>As palavras interditas</h3>
<blockquote><p>Os navios existem, e existe o teu rosto<br />
encostado ao rosto dos navios.<br />
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,<br />
partem no vento, regressam nos rios.</p>
<p>Na areia branca, onde o tempo começa,<br />
uma criança passa de costas para o mar.<br />
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.<br />
É preciso partir, é preciso ficar.</p>
<p>Os hospitais cobrem-se de cinza.<br />
Ondas de sombra quebram nas esquinas.<br />
Amo-te&#8230; E entram pela janela<br />
as primeiras luzes das colinas.</p>
<p>As palavras que te envio são interditas<br />
até, meu amor, pelo halo das searas;<br />
se alguma regressasse, nem já reconhecia<br />
o teu nome nas suas curvas claras.</p>
<p>Dói-me esta água, este ar que se respira,<br />
dói-me esta solidão de pedra escura,<br />
estas mãos nocturnas onde aperto<br />
os meus dias quebrados na cintura.</p>
<p>E a noite cresce apaixonadamente.<br />
Nas suas margens nuas, desoladas,<br />
cada homem tem apenas para dar<br />
um horizonte de cidades bombardeadas.</p></blockquote>
<h3>Poema à mãe</h3>
<blockquote><p>No mais fundo de ti,<br />
eu sei que traí, mãe</p>
<p>Tudo porque já não sou<br />
o retrato adormecido<br />
no fundo dos teus olhos.</p>
<p>Tudo porque tu ignoras<br />
que há leitos onde o frio não se demora<br />
e noites rumorosas de águas matinais.</p>
<p>Por isso, às vezes, as palavras que te digo<br />
são duras, mãe,<br />
e o nosso amor é infeliz.</p>
<p>Tudo porque perdi as rosas brancas<br />
que apertava junto ao coração<br />
no retrato da moldura.</p>
<p>Se soubesses como ainda amo as rosas,<br />
talvez não enchesses as horas de pesadelos.</p>
<p>Mas tu esqueceste muita coisa;<br />
esqueceste que as minhas pernas cresceram,<br />
que todo o meu corpo cresceu,<br />
e até o meu coração<br />
ficou enorme, mãe!</p>
<p>Olha — queres ouvir-me? —<br />
às vezes ainda sou o menino<br />
que adormeceu nos teus olhos;</p>
<p>ainda aperto contra o coração<br />
rosas tão brancas<br />
como as que tens na moldura;</p>
<p>ainda oiço a tua voz:<br />
Era uma vez uma princesa<br />
no meio de um laranjal&#8230;</p>
<p>Mas — tu sabes — a noite é enorme,<br />
e todo o meu corpo cresceu.<br />
Eu saí da moldura,<br />
dei às aves os meus olhos a beber,</p>
<p>Não me esqueci de nada, mãe.<br />
Guardo a tua voz dentro de mim.<br />
E deixo-te as rosas.</p>
<p>Boa noite. Eu vou com as aves.</p></blockquote>
<h3>Adeus</h3>
<blockquote><p>Já gastamos as palavras pela rua, meu amor,<br />
e o que nos ficou não chega<br />
para afastar o frio de quatro paredes.<br />
Gastamos tudo menos o silêncio.<br />
Gastamos os olhos com o sal das lágrimas,<br />
gastamos as mãos à força de as apertarmos,<br />
gastamos o relógio e as pedras das esquinas<br />
em esperas inúteis.</p>
<p>Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.<br />
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;<br />
era como se todas as coisas fossem minhas:<br />
quanto mais te dava mais tinha para te dar.</p>
<p>Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.<br />
E eu acreditava.<br />
Acreditava,<br />
porque ao teu lado<br />
todas as coisas eram possíveis.</p>
<p>Mas isso era no tempo dos segredos,<br />
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,<br />
era no tempo em que os meus olhos<br />
eram realmente peixes verdes.<br />
Hoje são apenas os meus olhos.<br />
É pouco, mas é verdade,<br />
uns olhos como todos os outros.</p>
<p>Já gastamos as palavras.<br />
Quando agora digo: meu amor,<br />
já se não passa absolutamente nada.<br />
E no entanto, antes das palavras gastas,<br />
tenho a certeza<br />
que todas as coisas estremeciam<br />
só de murmurar o teu nome<br />
no silêncio do meu coração.</p>
<p>Não temos já nada para dar.<br />
Dentro de ti<br />
não há nada que me peça água.<br />
O passado é inútil como um trapo.<br />
E já te disse: as palavras estão gastas.</p>
<p>Adeus.</p></blockquote>
<h3>O Silêncio</h3>
<blockquote><p>Quando a ternura<br />
parece já do seu ofício fatigada,</p>
<p>e o sono, a mais incerta barca,<br />
inda demora,</p>
<p>quando azuis irrompem<br />
os teus olhos</p>
<p>e procuram<br />
nos meus navegação segura,</p>
<p>é que eu te falo das palavras<br />
desamparadas e desertas,</p>
<p>pelo silêncio fascinadas.</p></blockquote>
<h4>Conclusão</h4>
<p>Ficamos por aqui!</p>
<p>Esperamos que você tenha gostado de nossa seleção de poemas de Eugénio de Andrade.</p>
<p>Se você curtiu esse conteúdo, não deixe de ver a nossa coletânea <a href="https://comofazerumpoema.com/poemas-de-david-mourao-ferreira-poeta/">poemas de David Mourão-Ferreira</a>.</p>
<p>Um abraço e até a próxima!</p>
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